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Gostaria de conseguir escrever apenas com a melancolia

Acho que meus momentos melancólicos não são poéticos o bastante

Não consigo tirar arte de minha tristeza

Ela parece sempre tão jovem, tão ingênua e tão banal

Só sei escrever com sentimentos mais enérgicos

Raiva, desespero, agitação, ansiedade

Alegria, euforia, são elas que movem meus dedos

Nesse teclado

Sem parar

Parei.

Não estou em estado artístico.

Até outro dia.


Bate a pancada do sangue nos meus olhos quando acordo

E não acordo pro dia ou pro sol

Mas pra vida e pro processo criativo

E pra tudo aquilo que faz minha boca salivar

Selvagem

Porque há vida demais cobrindo esses ossos e unhas afiadas demais

Pra não perfurar, rasgar e destruir

Renovar tudo aquilo que não se ajoelha devotadamente aos pés de minhas vontades

E do grito inquietante em meu coração que não se satisfaz e não se subordina

Abro os olhos como se abrem as rosas

Vermelhas de sangue


Dei meu sangue

para que as flores crescessem vermelhas em meu jardim

Um dia encontrei-nas murchas; suas pétalas, caídas

E nos seguintes, mortas e secas

Mas não me ressenti: meu sangue é passageiro também

E tal é a vida: construir, a partir do que temos de breve, inúmeras outras brevidades

Nada é completo enquanto sozinho, nada se basta individualmente


essas ruas se comunicam

com algo sólido e antigo presente em minha alma

influências pretéritas sobre o modo pelo qual me perco pelas vias

nada é por acaso e meu coração sabe por onde me levar

pois essa São Paulo oitocentista é uma amante que conhece meus gostos, meus pequenos delírios de grandeza

suas curvas me capturam, me conduzem a seus segredos

admiro os belos espelhos quem se erguem sobre o céu da Marginal

mas, em face dos vitrais centenários, só posso me render.


Eu costumava dar passos lentos

mas um fator fora do alcance de minha compreensão me impeliu a acelerar meus passos cada dia mais até que larguei para trás a cautela com que observava cada movimento de meus pés, cada centímetro quadrado das calçadas

um dia parei de olhar para baixo…


A mão que crava as unhas

E cessa os batimentos

E o sangue parado nas veias

Um rio que percorre cidades mortas

Preso em um corpo efêmero, vulnerável

Uma mente silenciada

Eternamente interrompida

As cortinas se fecham

Somos pó e sombras:

Ao pó voltaremos

Mas as sombras permanecerão


Desejo subir no prédio mais alto dessa cidade e gritar

Todas as ânsias

Das profundidades mais inalcançáveis da minha alma

Porque hoje sou a chama, e amanhã serei as cinzas

E quando for cinzas poderei voar por essa cidade

Mas por enquanto só posso viver por cima das luzes

Através daquilo que Whitman chama de “brado bárbaro”

E eu chamo de liberdade em vida.


Queria poder olhar nos seus olhos

Te abraçar e agradecer por um dia ter pisado a mesma terra que eu

Por mais mentes lindas que existam e tenham existido,

Por mais que a semente da sensibilidade e da arte tenha tocado tantas pessoas de modo tão sagrado

Poucos me enxergam como você

Em poucos se vê uma verdade tão grande ao tocar em temas tão caros ao ser humano:

o amor, a juventude, o momento social, os sentimentos

Queria poder conversar com você, saber o que pensaria do mundo de hoje

Do Brasil de hoje, mas talvez seja melhor assim

Não gostaria de te ver tão triste…


Há dois tipos de escritores: os que se autocriticam e os que se autodebocham. Para o segundo caso, a tarefa mais árdua possível é tentar produzir algo sério. Como todos os escritores você sente, e sente demais. …


As várias catástrofes que me compõem

Substanciam minha humanidade

Somos imperfeitos, caóticos, catastróficos

Somos uma expressão artística dos elementos químicos

Nosso alinhamento moral dança por entre as minúcias das circunstâncias

Somos cicatrizes na sólida estrutura do universo

.

Apaixonada pelos grandes impactos de poucas palavras.

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